Com a palavra o Sr. cão

fonte: Edson Franco para a Revista Galileo

Você acha que sabe tudo sobre o seu bichinho de estimação? A ciência está mostrando que ele não concorda com isso

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O tempo em São Paulo não tem ajudado. Apesar das chuvas, o cocker Chico passeia diariamente. Nos dias ensolarados, seus donos, o casal Nívia e Vitorio Buzatto, vêm com a coleira, e Chico saltita e abana o rabo diante da perspectiva de ir para a rua. Mas, quando eles se aproximam com a capa de chuva, Chico fica cabisbaixo, inquieto e até recurvado. No diagnóstico dos donos, o cãozinho está contrariado por ter de enfrentar o aguaceiro. Mas, na cabeça de Chico, o problema é a capa. Muito mais do que desconforto, aquele pedaço de plástico amarelo traz à memória do bicho uma experiência humilhante.

Os cães vivem em comunidades – famílias ou matilhas – nas quais compõem sistemas hierarquizados. Quando isso se dá na nossa casa, tudo fica mais fácil. Humanos são “donos” e, agradecidos, os bichos obedecem. Sem essa ordem, o cão resgata o comportamento de seus ancestrais, os lobos. Nas alcateias, para atingir o posto de dono do pedaço, um lobo tem de subjugar seus adversários, usando a força para pressionar as costas, o pescoço e a cabeça. Exatamente os pontos tocados pelas capas de chuva.

Conclusões como essa são os primeiros resultados de uma série de pesquisas recentes que escancaram uma verdade: dedicadíssimos quando o assunto são os primatas, os cientistas foram relapsos com o nosso melhor amigo. Até agora. Para reparar isso, a nova leva de pesquisadores começou seus estudos constatando que o maior obstáculo para a compreensão do que se passa na cabeça dos cães é o homem. Mais exatamente, o antropomorfismo, esse hábito que temos de transferir para os cães impressões, sentimentos e atitudes que são nossos.
Isso não significa que essas novas pesquisas estão aí para aniquilar a ideia de que os cães podem ser – ou estar – ciumentos, amorosos, tristes, radiantes, questionadores ou deprimidos. Para os cientistas, o desafio é tirar o discurso da boca dos humanos e permitir que os cães falem por si.

O exemplo mais popular dessa abordagem chegou às livrarias do Hemisfério Norte em setembro passado e, já na estreia, alcançou o 16º lugar na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Trata-se de Inside of a Dog: What Dogs See, Smell and Know (Dentro de um Cão: o que Cães Veem, Cheiram e Sabem, ainda inédito no Brasil), livro de Alexandra Horowitz, cientista cognitiva e professora de psicologia na Universidade Columbia, nos EUA. “Nós sempre falamos sobre como os cães são, o que eles sabem, o que experimentam. Tudo sem observar cientificamente ou interagir com eles. Alimenta esse tipo de postura o fato de considerarmos os cães como ‘pequenos humanos’. Menos espertos e sofisticados, mas variações da gente”, afirma a autora.

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O cão tem um relógio interno dotado de um mecanismo com o qual investiga o ar do ambiente ao longo do dia. com isso, ele identifica, por exemplo, a corrente de ar mais fresca quando o sol se põe. e é assim que ele sabe a hora de acordar, comer ou fazer uma siesta

Em pele de raposa

Em iniciativas separadas, Alexandra e os psicólogos cognitivos Brian Hare e Marc Hauser – leia quadro na página 50 – retomam o estudo dos cães do ponto em que a visão humana das coisas começou a atrapalhar: a domesticação, iniciada cerca de 15 mil anos atrás. Para chegar lá, tiveram de viajar no tempo e no espaço. Especificamente para 1959 e para a cidade de Novosibirsk, a maior da Sibéria, distante 2.821 km de Moscou.

Ali, o geneticista Dimitri Belyaev fez um estudo com raposas – parentes distantes do cão e do lobo. A estratégia era chegar perto da jaula e oferecer comida ou afagos. A maioria fugia, mas algumas raposas se entregavam às iguarias e cafunés. Selecionadas, elas se reproduziram e novas peneiras foram feitas para escolher os filhotes mais amistosos. Lá pela oitava geração, já tinha raposa abanando o rabo ao ver um humano conhecido. Cerca de 20 anos depois de iniciado o experimento, as orelhas dos animais se curvaram, as caudas encurtaram e os crânios ficaram mais largos. Nascia a raposa domesticada.

Decifrado o processo de sedução mútua que resultou na domesticação, veio a tarefa complicada de tirar o homem do caminho. “Por meio do antropomorfismo, os nossos ancestrais humanos tentavam explicar e prever o comportamento de outros animais, principalmente aqueles que poderiam virar comida ou que, pior, apreciavam carne humana”, diz Alexandra. O que era solução para os homens das cavernas virou um problema que os atuais pesquisadores resolveram com outra volta ao passado. Em 1974, o filósofo sérvio Thomas Nagel publicou o artigo “What Is It like to Be a Bat?” (Como é Ser um Morcego?), no qual critica as simplificações no estudo da mente e fala na necessidade de vermos as coisas a partir do ponto de vista das cobaias. Era o clique que a ciência precisava para estudar os cães. Para saber o que se passa dentro da cabeça deles é preciso ver, ouvir e, principalmente, cheirar como eles.

NOVAS PISTAS | O que a ciência está descobrindo sobre alguns comportamentos caninos

  • VISÃO Só de acompanhar nossos gesto e olhares, os cães sabem onde guardamos coisas que eles adoram, como nossos sapatos e meias. Não precisam do olfato para isso
  • SEM NOÇÃO Quando leva uma bronca, o cão fica com o rabo entre as pernas devido ao tom de voz do dono. Ele não associa isso ao fato de ter detonado a mobília, por exemplo
  • CAPA DE CHUVA Muitos bichos não ficam confortáveis debaixo dela, pois isso lembra um passado em que os cães demonstravam superioridade ao montar uns nos outros
  • LAMBIDA O que pode parecer um beijo carinhoso é uma investigação para constatar o que você comeu e torcer para que um pouco do alimento saia da sua boca

O cheiro

Diferentemente da audição e da visão, no olfato os cães têm mais de um sistema sensorial dedicado a esmiuçar sensações”, diz Ádám Miklósi, líder do maior grupo de estudo canino do mundo, baseado na Universidade Eötvös, em Budapeste, na Hungria. Isso significa que, muito mais que ver, o cão cheira o mundo. E é essa a principal ferramenta para ele nos entender, conviver com seus semelhantes, diagnosticar doenças e até montar a sua complexa e engenhosa contagem do tempo.

Isso mesmo: com o que é captado por seu focinho, o cão acompanha o decorrer do tempo e data as coisas. Com nossos limitados receptores olfativos, temos dificuldade até para diagnosticar se um café foi adoçado com uma colher de chá de açúcar. Os cães são capazes de identificar a mesma colher de açúcar diluída em duas piscinas olímpicas. Essa habilidade torna fácil para eles sentir o cheiro de uma gota de orvalho se instalando e evaporando das pétalas de uma flor, por exemplo. E esse é um tipo de informação valiosa para que eles saibam se um evento é recente ou se um objeto é novo ou velho.

Ou seja, o olfato é a visão dos cães. Assim, são compreensíveis aqueles momentos em que eles recepcionam pessoas enfiando bravamente o focinho entre as coxas do visitante. Assim como as axilas e os pés – descalços, claro -, a genitália carrega odores que liberam muitos dados a respeito do recém-chegado. Privar os cães desse tipo de informação equivaleria a vendar os nossos olhos antes de abrir a porta de casa.

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Nos últimos 15 mil anos os cães desenvolveram ferramentas de sedução tão eficazes, que os cientistas pendem para o lado deles na hora de responder à pergunta: "Quem manipula quem?"

Xixi no tapete

Todo dono que se julga um especialista no comportamento canino – a maioria – é capaz de jurar que seu bicho associa uma bronca à “arte” que acabou de aprontar. Estão equivocados. Junto com focinhos que conseguem identificar se a gente fumou no dia anterior, se transou ou se comeu salmão no almoço, os cães têm um espectro auditivo muito maior do que aquele que o ser humano consegue captar. Além disso, para identificar a origem do som, suas orelhas são equipadas com no mínimo 18 músculos, o triplo que as nossas têm. Isso permite que eles virem, ajustem, foquem e direcionem os órgãos. Apesar de tamanha precisão auditiva, os cães não processam palavras, como muitos defensores dos antropomorfismos adorariam.

O que os novos estudos mostram é que os cães compreendem a entonação e a ira exalando pelos poros do dono, mas não associam isso com o xixi no tapete ou o rasgo no sofá. “Eles entendem o tom da voz, o som geral da frase e, em alguns casos, as palavras que usamos. Além disso, o período do dia e os hábitos pessoais do dono podem ajudar a dar um sentido para aquilo que o cão está ouvindo. Eles intuem que, à noite, é muito maior a chance de você dizer ‘hora de ir pra cama’ do que ‘o que você quer de café?’”, diz Alexandra.

Há um componente entre as habilidades caninas que intriga os cientistas e vem derrubando e construindo certezas. Ao lado dos humanos, os cães são a única espécie capaz de entender o que significa um dedo apontado em determinada direção. Nem os primatas, nossos parentes mais próximos, têm esse talento. Os pesquisadores acreditam que isso evoluiu devido a dois fatores: os cães nos encaram destemidamente – em outras espécies o contato olho no olho é visto como uma ameaça – e eles prestam uma atenção inabalável em tudo o que fazemos com os nossos gestos e olhares. Assim, mesmo sem auxílio do faro, eles sabem onde guardamos objetos que para eles são relevantes.

Alguns cientistas defendem que essa dedicação para acompanhar todos os nossos movimentos vai muito além da mera curiosidade. Publicado em setembro passado, um estudo liderado por Josef Topál, cientista cognitivo do Instituto de Psicologia da Hungria, mostrou que essa atenção que os cães nos direcionam é um dos traços que mais nos aproximam. Na frente de bebês de dez meses, os pesquisadores esconderam brinquedos sob copos.
Eles apontavam para aquele sob o qual estava o brinquedo, e os bebês indicavam o mesmo e acertavam. Fácil demais, até porque eles tinham visto o objeto ser levado para debaixo do copo. Depois, os cientistas passaram a apontar para o copo errado, e as crianças erraram junto. Por fim, retiraram-se da sala e passaram a manusear os copos por fios no teto. E os bebês acertaram todas as vezes. O teste foi repetido em cães, e os resultados foram exatamente os mesmos.

Como os bebês, os cães deixam de lado as suas próprias impressões, certezas e ideias e seguem as nossas. Sem pensar, sem questionar, sem reclamar caso algo tenha dado errado. Essa é mais uma das ferramentas de sedução que nossos amigos de quatro patas vêm desenvolvendo e usando com eficiência exemplar ao longo dos últimos 15 milênios. Até o dia em que os cientistas apareçam com novas conclusões surpreendentes a respeito do comportamento canino, tudo bem a gente continuar chamando isso de amor.

MAIS RESPOSTAS | EUA montam dois grandes laboratórios totalmente dedicados ao estudo dos cães

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Talvez no ano que vem a gente tenha de fazer outra reportagem sobre os cães só para atualizar você com as descobertas prometidas para os próximos meses. Só nos EUA, dois grandes centros para o estudo da cognição canina foram abertos neste ano.

Liderado pelo professor de antropologia evolutiva Brian Hare, o Centro de Cognição Canina da Universidade Duke está aceitando a inscrição de donos interessados em emprestar seus bichos para o estudo. A intenção é juntar o maior número possível de cães para pesquisar três aspectos: o efeito da domesticação na cognição, as diferenças entre as raças na resolução de quebras-cabeças e os bloqueios cognitivos.

Segundo Hare, apesar de o objeto de estudo serem os cães e as conclusões imediatas dizerem respeito a eles, muitas respostas sobre seres humanos podem aparecer durante as pesquisas, inclusive para a mais importante delas: “Como ficamos tão espertos? A pesquisa pode sugerir se isso decorre do fato de termos nos tornado mais amistosos ou de termos, como os cães, resultado da cruza de ancestrais que selecionaram parceiros cada vez mais inteligentes”.

O também recém-inaugurado Laboratório de Cognição Canina da Universidade Harvard tem métodos parecidos mas objetivos um pouco diferentes. Ali também os cães vêm de donos interessados em emprestar seus bichos para a ciência.

Liderados pelo psicólogo cognitivo Marc Hauser, os pesquisadores de Harvard procuram decifrar como os cães reconhecem padrões de sons, pensam sobre eventos e coisas e tentam entender o que os donos acreditam, desejam e pretendem.

Quando as respostas das duas pesquisas começarem a aparecer, finalmente vamos estar mais perto de olhar para um cão correndo atrás do pneu de um carro e dizer: “Eu sei o que ele está fazendo”.

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