Cães e catadores de papel mostram companheirismo nas ruas de SP

THAÍS FONSECA

Rodeada de papéis velhos e tábuas, Bolinha dorme tranquilamente sob o Viaduto do Glicério, reduto de trabalho de catadores de papel no centro de São Paulo. A filhote, uma vira-lata de poucos meses de vida, é um dos cães que circulam no local, em meio aos sacos de lixo que chegam e que são separados manualmente para reciclagem.

José Antônio Horácio, catador de papel e morador de rua que cria seis cães

José Antônio Horácio, catador de papel e morador de rua que cria seis cães

"O meu trabalho é para comprar comida para mim e para os meus cachorros", diz Horácio

"O meu trabalho é para comprar comida para mim e para os meus cachorros", diz Horácio

À vontade no cenário, os cães são mais que observadores do trabalho já que costumam, em muitos casos, acompanhar os catadores de lixo nas “andanças” pela cidade. Além de guardar a carroça, acabam desenvolvendo uma relação profunda de amizade com o catador e, não raro, são mencionados como membros da família, como no caso de Bolinha. “Minha vida sou eu e meus cãezinhos”, diz José Antônio Horácio, o dono, que cria mais cinco.”Comigo, somos em sete cães”, brinca.

Bolinha, filhote de vira-lata, é o mais novo membro da ''família'' de José Antônio Horácio, dono de mais cinco cães

Bolinha, filhote de vira-lata, é o mais novo membro da ''família'' de José Antônio Horácio, dono de mais cinco cães

Catador de papel e morador de rua há quase vinte anos, Horácio adotou há cerca de quinze Princesa, uma cadela que encontrou por acaso. Depois dela, mais cães abandonados cruzaram seu caminho e ganharam nomes como Cartuxo, Pelé e a Bolinha, última a ser adotada. São eles que dormem ao redor da moradia improvisada sob o viaduto e que o avisam da presença de estranhos, sejam eles humanos ou, o mais comum, outros animais, como ratos e insetos.”Eles matam tudo”, diz o dono, orgulhoso.

A escolha de montar sua “cabana”, diz ele, foi influenciada pelos próprios cães, já que muitos albergues da cidade não aceitam a entrada de animais. Sem coragem de deixá-los sozinhos e pouco habituado aos horários impostos, decidiu morar na rua com os companheiros que, garante, são vacinados e bem alimentados. “O meu trabalho é para comprar comida para mim e para os meus cachorros”, diz, apontando o macarrão amontoado sobre uma folha de jornal, colocado para os cães.

O resultado da dedicação de Horácio é retribuída: eles o seguem por toda a parte e parecem a todo momento querer brincar com o dono. “É só eu pegar a carroça que eles me acompanham”, diz, explicando que todos ficam soltos, com exceção de Bolinha que, por ora, é levada na carroça.

Renildo dos Santos faz carinho em Leão, seu companheiro de ''andanças''; segundo o dono, o cão é capaz de encontrá-lo sozinho pela cidade

Renildo dos Santos faz carinho em Leão, seu companheiro de ''andanças''; segundo o dono, o cão é capaz de encontrá-lo sozinho pela cidade

Leni Alves de Sousa, esposa do catador de lixo Renildo dos Santos, recebe carinho de Leão, o cão da família

Leni Alves de Sousa, esposa do catador de lixo Renildo dos Santos, recebe carinho de Leão, o cão da família

A companhia pelas ruas também faz parte da vida de Leão, vira-lata de média estatura que costuma acompanhar Renildo dos Santos, embora algumas vezes, por cansaço ou distração, ele volte para casa antes da hora. Em outras, Leão perde a saída de Renildo mas, profundo conhecedor do trajeto do dono, consegue encontrá-lo no meio do caminho. “Quando eu quero encontrar meu marido pergunto ao Leão”, conta Leni Alves de Souza, esposa do catador.

Embora se mostre manso com estranhos, os donos o consideram um bom cão de guarda, capaz de vigiar a carroça, responsável pelo “ganha pão”. “Ele pode não morder a pessoa, mas reconhece a carroça e vai atrás”, diz Renildo, confiante das habilidades do cão. O cansaço por causa da idade e o senso de localização de Leão evitam que ele próprio seja roubado, o que pode acontecer no local. “Algumas pessoas roubam cães para vender”, diz Renildo, que afirma já ter tido um de seus cães roubados certa vez.

Luís Felício abraça Neguinha, sua cadela que, segundo ele,''não tem preço''

Luís Felício abraça Neguinha, sua cadela que, segundo ele,''não tem preço''

Além dos “acompanhantes”, há ainda os que aguardam em casa a volta dos donos. É o caso de Luís Felício, catador de papel e morador de rua (sob o viaduto) há vinte anos, que cuida de Neguinha, uma poodle preta. Com ela no colo, o catador explica que deixa a cadela em casa quando vai trabalhar. O problema, diz ele, é que além da idade avançada, ela é cheia de manha. “Quando vai comigo só quer colo”. Com carícias e beijos em Neguinha, ele elogia incansavelmente a beleza da cachorra. “Uma vez uma madame me perguntou quanto eu queria para vendê-la”. A resposta, diz ele, não foi muito educada. “A Neguinha não tem preço, onde eu for vou levá-la comigo”, afirma.

Laudison da Silva segura seu cãozinho, um dos dois filhotes que cria em sua moradia sob o viaduto

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Catadores e cães mostram amizade intensa sob o Viaduto do Glicério, no centro de SP

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Caquinha circula à vontade entre os sacos de lixo

Caquinha circula à vontade entre os sacos de lixo

Caquinha, cadela que acaba de dar à luz, ganha carinho da dona, Cremilda dos Santos, que trabalha com a reciclagem do lixo

Caquinha, cadela que acaba de dar à luz, ganha carinho da dona, Cremilda dos Santos, que trabalha com a reciclagem do lixo

Próximo à moradia de Felício, Laudison da Silva também aparece para mostrar suas filhotes, Natasha e Sofia, que brincam sobre o colchão do dono. Uma delas, mesmo pequena, tem defeito em uma das patas, causado por atropelamento, o que não impede que siga o dono com frequência. Ao falar sobre a considerável quantidade de cães que vivem no local, Laudison diz não se admirar. “O cão é o melhor amigo do homem: não fala mal de você e estão sempre ao seu lado, em qualquer situação”, filosofa.

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4 Comments to Cães e catadores de papel mostram companheirismo nas ruas de SP

  1. @Lela_Rosa disse:

    “O cão é o melhor amigo do homem: não fala mal de você e estão sempre ao seu lado, em qualquer situação”

    lindo, o amor que essas pessoas tem pelos seus bichinhos!
    impressionante, sempre que vejo 1 catador, morador de rua sempre tem 1 caosinho acompanhando.

    Lindo demais!

  2. Ingrid disse:

    Sempre que vejo algum morador de rua sendo carinhoso com um cãozinho me emociono! Pq amor pelos animais não tem nada a ver com dinheiro ou instrução. Minha única vontade era de sair por aí castrando os bichinhos deles…pq cuidar eles cuidam, mas nada podem fazer pra evitar que procriem.

  3. [...] Conheça também a história dos vira-latas que vivem nas ruas com catadores de lixo. [...]

  4. Dayne S.
    Twitter:
    disse:

    Que coisa linda de se ver, cara!

    ‘Os nossos animais de estimação retribuirão sempre o nosso amor’ – Keila Marques

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